Eugenia Zerbini

Livros

Capa_Para_você_nunca_se_esquecer.jpg

"Eu, Teresa Cristina de Bourbon das Duas Sicílias e Bragança fui digna, honrada e virtuosa. Porém, para a memória da história, parece não ter sido o suficiente."

 

Para você nunca se esquecer de mim ―, eram as palavras que acompanhavam os presentes que a imperatriz Teresa Cristina oferecia às damas que lhe eram próximas. O resgate da vida da última imperatriz do Brasil, mulher de Pedro II, é realizado por meio das páginas do romance “Para você nunca se esquecer de mim – imperatriz, nos tempos do imperador”. Com base em pesquisas feitas no país e no exterior, a autora não apenas reconstrói o cotidiano da família imperial no Segundo Reinado, como faz um painel da vida política e cultural do Brasil e da Europa na segunda metade do século XIX. 

 
 

Sobre

domina a narrativa do princípio ao fim

Carlos Heitor Cony

em um ritmo veloz... Eugenia narra sua história, no entanto, de modo seco, quase brutal - ou masculino, podemos arriscar

nos entrega uma reunião de narrativas precisas e nem um pouco previsíveis

Rafael Rodrigues

José Castello

A autora, aliás, trabalha bem a questão da temporalidade, tornando-a gradativamente um aspecto da sua escrita.

Sérgio  Tavares

Eugenia Zerbini se dedica há anos a uma vasta pesquisa, que a levou até Nápoles, entre outros lugares, para palmilhar a trajetória da imperatriz.

Walnice Nogueira Galvão

Que sou eu?

Eugenia Zerbini conquistou o Prêmio Sesc Literatura (2004/5) com seu romance de estreia, As netas da Ema (Record).

Em 2016, publicou a coletânea de contos Harém (Patuá), onde, além de contos inéditos, reuniu contos publicados em jornais e revistas nos últimos 10 anos. Seu romance mais recente (2019), Para você nunca se esquecer de mim ― imperatriz, nos tempos do imperador - , encontra-se editado pela plataforma Kindle/KDP.

 
 

Leia um conto

Mariachis´killer

No vale nada la vida
la vida no vale nada
comienza siempre llorando
y así llorando se acaba
(Camino de Guanajuato, José Alfredo Jiménez)

 

            Eu não gosto de cores. Prefiro o mundo escuro, castanho, ocre, cinza-azulado, da tela dos computadores. Não obrigatoriamente o meu; na maioria das vezes, formo minha tropa de laneros e vamos jogar en las houses.

            - Ramiro...

            Não gosto de minha mãe, la vieja.

            - Meu nome é Ricky. Ricky, por la eternidad (ouvi em um filme. Gostei. Saí do cinema e mandei minha irmã descolorir meu cabelo. O máximo que ela conseguiu foi um amarelinho. Talvez má vontade dela. Porém, gostei. Dessa cor eu gostei. Foi uma cor que matou minha cor natural. Como já contei, a mi no me gustán las colores).

            - Ramiro, tengo que salir.

            - Vai pela sombra, vieja -... Não suporto seu cheiro de alho, cravo e coentro, parece que sempre diante de uma panela de mole.

            - En México, hay una receta de mole en cada cocina – é o limite de sua sabedoria. Não gosto dela, mas gosto de mole, feito com cacau amargo e marrom, sin otra color.

            A mi me encanta solamente el amarillito de mi pelo. É um alívio quando ela sai para o trabalho. É florista. Sustenta a casa com a venda de maçozinhos de flores fedorentas em Xochimilco, pesadelo de cores falsas, trapaça para turista. Engaño colorido. Acho que as telas de meu ordenador são mais verdadeiras do que todos os barquinhos deslizando naqueles canais.

            Ahora, mais do que as florezinhas de la vieja, o que me vira o estômago são aqueles poltrões, putones, ai-ai-ai, os mariachis, plantados ridiculamente sob a copa de sombreros infames.   

            Entra só de faca, você fica mais leve. Depois troca de arma, escolhe no teclado, de 1 a 5. Espaço, você pula, pula outra vez. Esse é o game. Além de meu cabelo amarelo – falsa cor de meu cabelo -, às vezes gosto do vermelho. Em sangue, ferida, alvo atingido.

            Nosotros jogamos combinado, nem sempre terroristas, nem todos pistoleiros. Para mim, pouco importa o lado, o legal é jogar e imaginar que meus alvos sãos mariachis. Maricones, dá tudo no mesmo. Ai-ai-ai, é o vermelho da faísca, da bala que adentra nas carnes pegas de surpresa, largadas depois para trás. Bonecos inúteis. Como as letras das músicas que cantam.

            Vai de “w” e sai de frente, na primeira chance descola um colete e um capacete, aperta control e abaixa, manda ver, shift, você vai devagar, mas sem barulho. Como uma sombra, ninguém percebe.

            Minha irmã – aquela que mudou meu cabelo – foi para L.A. (¡Los Angeles, eso!).  Meio-vadia, meio-cabeleireira, meio-irmã, já que é filha de minha mãe com outro homem, da época em que la vieja morava em Tenochtitlán. Foi lá que essa, depois de alguns anos, conheceu o outro que diz ser meu pai. Fugiram para os arredores da capital e descolaram emprego em Xochimilco. Tudo muito bom enquanto durou. Um dia ele encontrou coisa melhor, mais jovem. Ela se acabou.

            - Ele era um mariachi – segredou-me tempo atrás. - O mais garboso dos mariachis. Ai-ai-ai.

            “S”, você volta atrás. “S”, repete. Tem vezes que você precisa ir para trás. ¿Que más les puedo decir? Alcança o mouse, pressiona o botão esquerdo e atira.

 

(publicado na revista Cult, de março de 2009)

Contato

 

© 2019 Eugenia Zerbini    eugeniazerbini@uol.com.br