Shadow on Concrete Wall

contos

Mariachis 'Killer

Publicado na revista Cult, de março de 2009.

No vale nada la vida

la vida no vale nada

comienza siempre llorando

y así llorando se acaba.

Camino de Guanajuato, José Alfredo Jiménez

                  Eu não gosto de cores. Prefiro o mundo escuro, castanho, ocre, cinza-azulado, da tela dos computadores. Não obrigatoriamente o meu; na maioria das vezes, formo minha tropa de laneros e vamos jogar en las houses.

                  - Ramiro...

                  Não gosto de minha mãe, la vieja.

                  - Meu nome é Ricky. Ricky, por la eternidad (ouvi em um filme. Gostei. Saí do cinema e mandei minha irmã descolorir meu cabelo. O máximo que ela conseguiu foi um amarelinho. Talvez má vontade dela. Porém, gostei. Dessa cor eu gostei. Foi uma cor que matou minha cor natural. Como já contei, a mi no me gustán las colores).

                  - Ramiro, tengo que salir.

                  - Vai pela sombra, vieja -... Não suporto seu cheiro de alho, cravo e coentro, parece que sempre diante de uma panela de mole.

                  - En México, hay una receta de mole en cada cocina – é o limite de sua sabedoria. Não gosto dela, mas gosto de mole, feito com cacau amargo e marrom, sin otra color.

                  A mi me encanta solamente el amarillito de mi pelo. É um alívio quando ela sai para o trabalho. É florista. Sustenta a casa com a venda de maçozinhos de flores fedorentas em Xochimilco, pesadelo de cores falsas, trapaça para turista. Engaño colorido. Acho que as telas de meu ordenador são mais verdadeiras do que todos os barquinhos deslizando naqueles canais.

                  Ahora, mais do que as florezinhas de la vieja, o que me vira o estômago são aqueles poltrões, putones, ai-ai-ai, os mariachis, plantados ridiculamente sob a copa de sombreros infames.

                  Entra só de faca, você fica mais leve. Depois troca de arma, escolhe no teclado, de 1 a 5. Espaço, você pula, pula outra vez. Esse é o game. Além de meu cabelo amarelo – falsa cor de meu cabelo -, às vezes gosto do vermelho. Em sangue, ferida, alvo atingido.

                  Nosotros jogamos combinado, nem sempre terroristas, nem todos pistoleiros. Para mim, pouco importa o lado, o legal é jogar e imaginar que meus alvos sãos mariachis. Maricones, dá tudo no mesmo. Ai-ai-ai, é o vermelho da faísca, da bala que adentra nas carnes pegas de surpresa, largadas depois para trás. Bonecos inúteis. Como as letras das músicas que cantam.

                  Vai de “w” e sai de frente, na primeira chance descola um colete e um capacete, aperta control e abaixa, manda ver, shift, você vai devagar, mas sem barulho. Como uma sombra, ninguém percebe.

                  Minha irmã – aquela que mudou meu cabelo – foi para L.A. (¡Los Angeles, eso!).  Meio-vadia, meio-cabeleireira, meio-irmã, já que é filha de minha mãe com outro homem, da época em que la vieja morava em Tenochtitlán. Foi lá que essa, depois de alguns anos, conheceu o outro que diz ser meu pai. Fugiram para os arredores da capital e descolaram emprego em Xochimilco. Tudo muito bom enquanto durou. Um dia ele encontrou coisa melhor, mais jovem. Ela se acabou.

                  - Ele era um mariachi – segredou-me tempo atrás. - O mais garboso dos mariachis. Ai-ai-ai.

                  “S”, você volta atrás. “S”, repete. Tem vezes que você precisa ir para trás. ¿Que más les puedo decir? Alcança o mouse, pressiona o botão esquerdo e atira.

© 2020 Eugenia Zerbini

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